Povo Apurinã: valorosos guerreiros e exímios artesãos

Edna Dias dos Santos

O povo Apurinã, da família lingüística Aruak, se autodenomina Popingaré ou Kangitê. Suas aldeias são divididas em duas metades matrimoniais: Xoaporuneru e a Metumoãtu. O fator que determina o pertencimento a uma ou outra metade é estabelecido pela linha paterna e expressa no sistema de nomeação. O ideal é que sempre se case um Xoaporuneru com um Metumoãtu.

A organização social do povo Apurinã se dá em pequenos grupos familiares e é deste modo que se distribuem as comunidades. Encontram-se dispersos em 20 terras indígenas em sete municípios do Estado do Amazonas, com uma considerável população de 3.024 índios (FUNAI, 2000). Em Boca do Acre e Pauini, sul do Amazonas são 1.796 habitantes (FUNAI, 2000), distribuídos em dez terras indígenas que na sua maioria já se encontram demarcadas e registradas.

Tal como os demais povos indígenas da região da Amazônia Ocidental, os Apurinã passam a ser contatados pelos não-índios na segunda metade do século XIX, quando a empresa seringalista invade suas terras em busca da borracha.

O processo de ocupação da região do Purus, a partir da década de 1870, forçou os Apurinã a se “tornarem” seringueiros, castanheiros, entre outras ocupações de interesse das frentes extrativistas. Esse engajamento na exploração extrativista desarticulou a organização social própria desse povo. Os que sobreviveram foram forçados a abandonar a cultura Apurinã e até mesmo a língua materna.

Com relação a aspectos próprios da cultura apurinã, convém destacar o papel dos pajés, cujo exercício da função implica em rigoroso processo de preparação. O candidato a pajé deve viver na floresta durante três meses, longe de sua companheira, e aí encontrar-se com a onça e receber os ensinamentos dos mistérios da vida e da morte. Ainda hoje os velhos pajés ocupam lugar de destaque, pois a eles é atribuído o máximo de qualidades e faculdades. Nas curas de doenças fazem uso da sucção, em rituais sempre precedidos do uso do rapé. A atuação dos pajés no uso dos poderes xamânicos destina-se também a feitiços, os quais, por vezes, resultam em conflitos violentos, em ações de vingança entre famílias ou em confrontos inclusive entre grupos de parentesco consagüíneo..

Outro aspecto particular da cultura apurinã é o xingané ou kenuru (dança do tucano), ritual tradicional realizado por ocasião de luto e outros motivos, marcado pelo simbolismo guerreiro. Durante a cerimônia, os convidados chegam armados, pintados e enfeitados, enquanto que o grupo local vai ao encontro deles também armados e devidamente ornamentados. No encontro, os líderes travam uma discussão, cortam sanguiré (sãkira), que significa falar a língua apurinã. Com esse rito apagam-se os conflitos para ressaltar as alianças.

A caiçuma é um elemento essencial nas cerimônias apurinã e está presente em todas as festas. Trata-se de uma bebida feita de macaxeira num processo de fermentação cujo preparo leva dois dias.

Com relação à cultura alimentar, o peixe é o alimento básico. Pescam e caçam para o consumo e criam animais de pequeno e grande porte em escala subsistencial. Cultivam a macaxeira (para a produção de farinha), o arroz, milho e feijão. Complementam sua alimentação com frutos silvestres como piquiá, bacuri, bati, cacau bravo, caju, pupunha, buriti e abacaba, cujo vinho é muito apreciado.

O extrativismo hoje constitui-se em atividade essencial do povo Apurinã, especialmente na coleta da castanha, palhas e sementes de palmeiras com as quais fabricam seus artesanatos. Tradicionalmente utilizam como matéria-prima o endocarpo (caroço) dos frutos e as palhas de palmeiras como tucumã, jarina, inajá, murmuru e açaí, para fabricação de artesanatos como adornos de sementes, colares, gargantilhas, pulseiras, brincos e anéis. Utilizam ainda outros recursos naturais como a casca de um arbusto (carrapicho), que após retirada, batida, lavada e posta para secar, transforma-se em um barbante muito resistente usado como fio, denominado de envira, para junção das peças.

Da cultura Apurinã faz parte também a cestaria. Usando como matéria-prima cipós, malva, ambé, timbó, arumã e fibras de palhas são confeccionados paneiros, peneiras, vassouras, cestos, balaios, tipitis, abanos e chapéus. Dominam também a cerâmica, com produção variada de pratos, panelas, fogareiros e potes de barro.

Convém destaque na cultura desse povo também a arte plumária, especialmente na produção de adornos de cabeça, muito usados em festas. Quanto aos arcos e flechas, estes são produzidos da pupunha brava e suas pontas são de yuata (espécie de taboca).

O artesanato configura-se hoje em uma fonte econômica para esse povo e resgata parte da cultura apurinã, além de envolver toda a família no processo, desde a coleta dos recursos naturais na floresta feita por jovens e adultos do sexo masculino, até o acabamento final sob a responsabilidade das mulheres, sejam crianças, jovens ou adultas.

Atualmente, os Apurinã do Km 45 estão trabalhando com o Grupo de Pesquisa e Extensão em Sistemas Agroflorestais do Acre (PESACRE), e União das Nações Indígenas (UNI), com o apoio do Departamento de Ciências da Natureza da Universidade Federal do Acre (UFAC), na construção e implementação de uma metodologia para um plano de manejo comunitário de produtos florestais não-madereiros, contribuindo para melhorar a forma de exploração e utilização dos recursos naturais, além de garantir renda para suas famílias e para as gerações futuras.

Encontra-se também em andamento um projeto de revitalização e incentivo ao artesanato da cultura do povo Apurinã, localizado no Km 124 e na aldeia Kamicuã, que conta com o apoio de 80% dos recursos da comunidade e 20% do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre.

FUNDAÇÃO ELIAS MANSOUR. Arte/cultura Apurinã. Rio Branco AC: 2001, Cátalogo de Artesanato 2001.

FUNAI. Administração Executiva Regional de Rio Branco AC. Situação Fundiária das Terras Indígenas do Oeste do Estado do Amazonas, Jurisdicionada a AER/RBR.04/12/2000.

SCHIEL, Juliana. A Aldeia e o Mundo: Tempo e Memória em uma narrativa Apurinã. mimeo.

MANCIN, José Jaime. Relatório sobre a identificação da área a ser ampliada aos limites já demarcados do P.I.Boca do Acre. Brasília: FUNAI, 18/11/1980.