Kaxarari: de massacrados a organizados.


Edna Dias dos Santos


O povo Kaxarari pertence à família lingüística Pano. São falantes de sua língua e apenas os homens mais jovens falam o português. Segundo eles, também compreendem vocábulos da língua Kaxinawá. Têm uma população estimada em 200 pessoas e habitam o noroeste de Rondônia, município de Porto Velho e sudeste do Amazonas, no município de Lábrea, na altura do km 100 da BR-364.

O contato da sociedade brasileira com o povo Kaxarari se deu em três períodos distintos: o tempo das “correrias”, considerado o mais violento de todos; o tempo do “cativeiro”, onde se tornam mão-de-obra escrava da empresa de borracha; e o tempo dos “direitos”, que teve início com a instalação da AJACRE (Ajudância da Funai no Acre).

A sociedade regional lhes atribui índole pacífica e tranqüila. Estão vivendo nas terras entre os igarapés Macurenem e seu afluente Calaicá e no Azul, e seus afluentes Barrinha e Maloca, que nomeiam essas duas aldeias. Nos quilômetros 77 e 88 da BR-364, sentido Abunã–Rio Branco, encontramos algumas famílias. O acesso às aldeias é possível caminhando dez horas no varadouro que se inicia no km 198 da BR–364, sentido Rio Branco–Porto Velho, atravessando os seringais Mucambo e Piquiá, até a aldeia da Maloca na margem esquerda do rio Azul.

Com relação à população, há um certo equilíbrio entre os sexos, sendo 69 homens e 60 mulheres. A maioria (60,5%) é constituída de crianças e jovens com menos de 20 anos. Os velhos com mais de 50 anos são parcela mínima, apenas 2,3%, conseqüência do genocídio a que foram submetidos no período de 1910 aos tempos atuais. A população adulta, de 20 a 50 anos, é relativamente baixa (37,2%).

O povo Kaxarari organiza-se em clãs, na linha de descendência patrilinear, ou seja, cada homem ou mulher pertence sempre ao clã de seu próprio pai. São exogâmicos, não podendo casar dentro do mesmo clã. O casamento é com a filha do koko (tio materno ou sogro) ou com a filha da iaiá (tia paterna ou sogra), ou seja, o casamento ideal é entre primos cruzados bilaterais, mantendo-se a exogâmia clânica.

A organização familiar entre os Kaxarari tem sua importância não só como uma unidade de produção e consumo, mas principalmente como espaço de transmissão de valores, de sua tradição cultural.

Por volta da metade do ano de 1970, as lideranças Kaxarari do Azul procuraram pela primeira vez a sede da 8ª Delegacia Regional da FUNAI em Porto Velho-RO, para reivindicar a delimitação de suas terras e assistência na área da saúde.

Vivem de seus roçados de subsistência, da caça, da pesca, da coleta de frutas silvestres. Alguns trabalham como diaristas ou peões nas fazendas e seringais próximos a suas áreas. No entanto, a principal atividade econômica vem a ser a extração da seringa e coleta da castanha do Brasil.

De sua cultura material os produtos mais comuns são a rede de algodão, cesto de cipó titica (patxa), vassouras de cipó titica, bracelete (metamushi) de pena de carará (mergulhão) e tucano.

Os Kaxarari já não praticam seus rituais tradicionais, bem como já não vivem mais em habitações tradicionais. Os observadores afirmam que eles estão atravessando uma “desagregação social”, pois além do vínculo lingüístico parece haver pouca manifestação de sua cultura tradicional. A principal técnica de cura dos pajés era a sucção. Atualmente não existem mais pajés entre eles. Faziam muitas comemorações e cantorias de roda. Era comum em suas festas fazerem vestimentas de palha do olho do buriti, enfeites de penas, couros de onça, máscaras e pinturas. Tinha a festa do buiarri, que era a festa das frutas, quando todos iam para a mata apanhar ingá, najá, frutas de maçaranduba. Uma de suas brincadeiras era o bili, um jogo de bola de caucho, jogado com o joelho, parecido com esse futebol dos cariú (nome que usam para identificar o não-índio).

O kupá era uma prática xamânica que, nos dizem, provocava estados alterados de consciência, que dava porre, suava muito, fazia sonhar e curava. Era uma espécie de lavagem feita por um tipo de planta considerado como medicina herbal, hoje objeto de desejo comercial de poderosas empresas de medicamentos de todo o mundo.

A bebida kupá, no princípio era restrita aos homens e ingerida somente pelos mais velhos. Mulheres e crianças não participavam do ritual de abertura dos trabalhos. Curiosamente houve casos de mulheres que atuavam como pajé e ministravam diagnósticos e curas de enfermidades de origem alegada aos espíritos. A cura muitas vezes era ministrada através do sopro de fumaça de tabaco sobre o local ou até mesmo todo o corpo do paciente (biakintahi). Quando sob o efeito do kupá, o pajé podia ver que tipo de enfermidade ou presença espiritual estava agindo no paciente.

Uma coisa curiosa é que apesar de falarem línguas diferentes - os Apurinã falando Aruak e os Kaxarari falando Pano -, ambos possuíam um deus com o mesmo nome: Tsurá. Comparando as histórias contadas entre esses dois povos, vê-se que é o mesmo Tsurá.

Atualmente estão organizados através da Associação das Comunidades Indígenas Kaxarari (ACIK), no município de Extrema, em Rondônia, onde participam tanto os homens quanto as mulheres. O povo Kaxarari tem, através de projetos em parceria com instituições não-indígenas, firmado convênios para que a extração da seringa e coleta da castanha sejam comercializados, garantindo uma fonte de recursos financeiros. Esse projeto está sendo desenvolvido com apoio da Secretaria Executiva de Floresta e Extrativismo (SEFE-AC) e será encaminhado ao Programa de Apoio ao Agroex-trativismo da Amazônia. As mulheres estão sendo envolvidas num projeto de criação de galinhas, visando garantir a complementação alimentar, dada a escassez de caça em suas áreas. O projeto é acompanhado e apoiado financeiramente pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais do Rio de Janeiro- CERIS/RJ.

AQUINO, T. V. “Os Kaxarari”. Relatório de avaliação, CPI-AC, 1985.

GAULIK, P.M.(Pe.) Relatório Kaxarari, Mimeo, Prelazia Mullius de Porto Velho, 1975.

NEVES, M. V. As aventuras de Tsurá. In.: História das Margens. Outras Palavras

“Relatório de Implantação e Acompanhamento de Atividades realizadas pelo Projeto de Vigilância e Fiscalização da Terra Indígena Kaxarari - 12.2000.

Memo Nº 040/PIN Kaxarari/ERA/RBC/00. MACÊDO, A. L. B., chefe substituto do PIN/ERA/RBC. 15/12/2002.

Perícia antropológica. Ação Civil Pública Nº 96.0002121, SILVA, Domingos A. B. Ministério Público Federal - 08.2000.