Nukini - Em busca da cultura ancestral

Paulo Roberto Nunes Ferreira

Tradicionalmente a nação Nukini situava-se, no Brasil, na região da Serra do Moa, e no Peru, No Vale do Ucayali. Segundo estudos, o povo Nukini foi contatado pela primeira vez, no Brasil, em 1904. Já com os caucheiros peruanos o contato ocorreu entre fins do século XIX e princípio do XX. O contato com os peruanos, conforme relatórios da FUNAI, foi muito violento, porque muitos Nukini foram obrigados a realizar trabalhos forçados na exploração do caucho. A resistência, a recusa à submissão, resultaram em um número acentuado de indígenas assassinados. No Brasil a realidade não foi distinta. Os Nukini passaram por situações de extrema violência. Viviam sob “condições-limite” de subserviência, até mesmo as moças mais jovens das aldeias eram violentadas por patrões seringalistas da região.

Atualmente os Nukini possuem uma população estimada em 425 pessoas, que vivem na Terra Indígena Nukini, criada em 1993, com 31.932 ha. Está localizada na região do Vale do Juruá, na margem esquerda do rio Moa, dentro dos limites territoriais do município de Mâncio Lima, extremo oeste do Acre. Seus limites são, ao norte o Estado do Amazonas, ao sul e a oeste a República do Peru, a leste os municípios de Tarauacá e Jordão. Desde o ano de 1989, passou a ter o Parque da Serra do Divisor como vizinho. Quanto à situação fundiária da terra indígena Nukini, esta consta como registrada. A luta atual dos Nukini é pelo aumento do tamanho de sua área.

Pertencente à família lingüística Pano, hoje apenas seis pessoas Nukini falam a língua tradicional. O idioma usual é o português. O artesanato não se apresenta como uma alternativa econômica, pois é pouco praticado, na medida em que vêm sendo esquecido os costumes tradicionais, o costume de repassar as técnicas artesanais das gerações mais velhas para as mais jovens.

Socialmente os Nukini possuíam uma organização semelhante a dos demais povos indígenas, centralizada na figura do cacique ou como na denominação atual, a liderança, e o pajé. Tal como os demais povos indígenas da região, o processo violento de dominação e submissão a que foram submetidos acarretou na desagregação da sua tradicional organização social e política. Uma das mudanças mais visíveis foi o desaparecimento dos pajés homens entre os Nukini. Hoje, há apenas uma mulher que possui conhecimentos sobre plantas medicinais e realiza partos, segundo declarou Paulo César Nukini em entrevista concedida durante o II Encontro de Culturas Indígenas do Acre e Sul do Amazonas, realizado em abril de 2001: “Bom, nós temos lá um pajé que é uma mulher. Que é uma tradição ser um homem, mas nós temos uma mulher e ela trabalha muito bem, com muitos remédios da própria aldeia, naturais. O nome dela é Maria de Oliveira Nukini. Ela, além de ser uma curandeira, é uma parteira”.

Os Nukini passam por um processo que se pode chamar de “reconversão social”, em outras palavras, significa que pessoas de um determinado grupo social – indígena, por exemplo – gradativamente abandonam elos que os identificavam como grupo étnico culturalmente distinto. A língua própria constitui no elo principal, que garante a identidade de um povo. Elemento fundamental na cultura de qualquer povo, especialmente quando se trata de povos de tradição oral. Neste aspecto o povo Nukini sofre o maior impacto enquanto grupo étnico, a língua Nukini é muito pouco falada. Isso não ocorreu por acaso, e nem pode servir para desmerecer ou desqualificar os Nukini. Esse fenômeno social é conseqüência dos métodos violentos a que os povos indígenas foram submetidos para se “integrarem” aos modos da sociedade dominante, a não-indígena; foram forçados a abdicar de seus costumes, suas tradições, seus modos próprios de vida e até mesmo de sua língua.

Economicamente, os Nukini sobrevivem da agricultura de subsistência, criam alguns animais (bois, porcos, galinhas) e alguns poucos vendem, por vezes, produtos nas cidades de Mâncio Lima ou Cruzeiro do Sul. Quanto ao uso da terra, ocorre uma situação similar a de outros povos indígenas, a terra é de uso coletivo, quanto os roçados, cada família faz o seu, sob a liderança de um homem.

O território do povo Nukini está no centro de disputas e interesses entre madeireiros, pecuaristas e até mesmo traficantes, ou seja, a terra indígena dos Nukini está sendo invadida, sendo alvo de derrubada indiscriminada da floresta enquanto que a população da região é explorada e expropriada. Na perspectiva de garantir a integridade dos limites e dos recursos naturais dessa terra indígena destaca-se o papel da AIN (Associação Indígena Nukini) que desenvolve em parceria com instituições de apoio, trabalhos de cons-cientização da comunidade sobre questões acerca do desenvolvimento sustentável nessa área indígena, com vistas ao fortalecimento do povo, para garantir os direitos que lhes são próprios e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento econômico e revita-lização cultural. Os principais parceiros do povo Nukini vêm sendo o CIMI (Conselho Missionário Indigenista), FUNAI (Fundação Nacional do Índio) e a Organização Não Governamental S.O.S. Amazônia, instituições cujo trabalho de apoio visa garantir a integridade do povo e seu território, cooperando na construção de uma proposta de gestão ambiental para Terra Indígena Nukini.

Há ainda outras ações, como a de responsabilidade Governo do Estado, na oferta de educação escolar indígena, atendendo ao direito ao acesso a escolarização que respeite e valorize a cultura Nukini. No âmbito das parcerias há, também, um projeto que vem sendo desenvolvido pela professora Drª Celi Aguiar, da Universidade Federal de Goiás, que desde a década de 1980 trabalha na revitalização da língua tradicional dos Nukini.

Para os guardiões da floresta – os seringueiros, os ribeirinhos e os indígenas –, a terra significa mais do que um bem material. A terra representa um elo, a ligação com a tradição e a cultura de seus antepassados. Ela significa o sentido de um tempo presente e a esperança num tempo futuro.

ESTEVES, Maria Benedita G. Do manso ao guardião da floresta. Tese (Doutorado) . Rio de Janeiro RJ: Universidade Federal Rural Fluminense. 1999.

Bourdieu, Pierre. Poder Simbólico. São Paulo: Editora Difel, 1989.

IGLESIAS, M. P. Programa de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Acre. Maio 2001.

FUNAI/Relatórios.