Poyanáwa - Sabedoria e resistência
Sérgio Augusto de Albuquerque Gondim
Desde fins do século XIX que os territórios indígenas das bacias dos rios Juruá/Purus, ricos em seringa e caucho, foram invadidos e ocupados por caucheiros peruanos, seringalistas e seringueiros brasileiros. Essa ocupação foi rápida e intensa, praticamente transformando toda essa região de seringais nativos em propriedade dos “coronéis da borracha” ou “coronéis de barranco”. É o caso da exploração do rio Moa, iniciada em 1888. Esse rio, afluente do Juruá, consistia no território tradicional do povo Poyanáwa, pertencente à família lingüística Pano. Quatro anos depois, o rio Moa e o seu principal afluente, o rio Azul, foram ocupados pelos invasores não-índios.
Não se sabe ao certo a quantidade de pessoas nativas (indígenas) que viviam nessa região quando foi iniciada a ocupação pelos colonizadores. Esse tipo de informação era desprezado, assim como eram desprezados esses povos e tudo o que dissesse respeito a eles. Quanto ao povo Poyanáwa, há alguns registros sobre o número de pessoas, principalmente daqueles que eram apreendidos e submetidos ao trabalho forçado nas empresas seringalistas. Por exemplo, daqueles que foram levados para o Seringal Barão do Rio Branco, de propriedade do Cel. Mâncio Agostinho Rodrigues Lima, para o trabalho escravo, recebendo como pagamento alimentos e roupas. Ou ainda, conforme dados de 1920 e 1927, do Dr. João Braulino de Carvalho, informando da existência de 125 Poyanáwa catequizados no Seringal Barão. Por sua vez, Kietzman informa que em 1908 havia 50 sobreviventes num seringal no rio Moa.
Não há dúvidas que a população Poyanáwa existente durante a ocupação, era bem maior que a daqueles submetidos ao processo de dominação. Sabe-se que houve muita resistência ao processo de “amansamento” e escra-vização por parte dos Poyanáwa, os quais faziam uso de diversos tipos de artifícios para enganar os opressores.
Atitude que facilitou ainda mais o domínio pelos colonizadores extra-tivistas foi a criação, pelo Governo de Cruzeiro do Sul, em 1914, de uma escola primária onde as crianças e os adultos Poyanáwa recebiam instrução. As informações destacam a facilidade com que adquiriam o conhecimento dos “civilizados”.
Apesar de todas as mazelas impostas pelos colonizadores, os Poyanáwa dão verdadeiras lições de valores humanos aos ditos “civilizados”. Destacam-se pela simpatia, são alegres e comunicativos. Das mazelas, restou o processo avançado de aculturação, com fortes traços de miscigenação entre os Poyanáwa e a sociedade envolvente.
Segundo o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), realizado pelo Estado do Acre em 1999, a população Poyanáwa é de 403 pessoas vivendo numa área de 21.214 ha.
Dentre o que foi descrito da cultura Poyanáwa, com relação à medicina, Pe. Tastevin relata que “uma pessoa febril se tratava por meios de banhos frios e quentes, que quando gripados tinham péssimas conseqüências. Também usavam bebera-gens preparadas com folhas diversas, suadouros e emplastros feitos com essas mesmas folhas”.
Ainda no tocante aos registros sobre a cultura Poyanáwa, quanto à produção de utensílios de cerâmica, o Dr. Braulino Carvalho observou que os Poyanáwa tinham “uns vasos bem elegantes, pintados de preto e vermelho, com vários desenhos, principalmente gregos, e que aplicavam, como os demais índios, confecções de urucum e de jenipapo, além de folhas de um arbusto a que chamam de anuem”.
Os objetos de cerâmica além de terem uma função doméstica, eram utilizados para fins religiosos. Segundo o Pe. Tastevin, os Poyanáwa calcinavam os ossos dos seus mortos para misturar as cinzas a um caldo (caiçuma) de milho e amendoim. Acreditavam que com isso estariam adquirindo as virtudes dos seus mortos.
Nos tempos atuais, a subsistência dos Poyanáwa tem base forte na agricultura. Cada família nuclear possui sua roça, produzindo principalmente para o consumo familiar. Plantam mandioca (maniva) e milho duro consorciados; feijão peruano, mudubim branco de sete semanas e arigó, também consorciados com mandioca; arroz, banana e cana-de-açúcar são cultivados isoladamente. Dada a influência da sociedade regional, também são cultivados alguns pés de café.
Integrados à economia regional, vendem farinha, galinha, ovos e porcos conforme o sistema de comércio da região, ou seja, a intermediários de Cruzeiro do Sul ou dos povoados próximos da comunidade Poyanáwa, adquirindo, em contra-partida, roupas, sal e outros produtos.
Ainda com relação ao comércio, a seringa continua sendo um produto comercializado na região. A pesca já não se constitui uma fonte perene de alimentação, assim como a caça, que conforme informações, desde a década de 1970 já era quase inexistente. Além disso, ainda persiste entre os Poyanáwa atividades remanescentes de sua cultura ancestral, com vistas a manter o seu bem viver, percorrendo a pé as mais variadas direções e localidades para conseguirem caça, água, frutos silvestres, matéria-prima para o seu reduzidíssimo artesanato, barro para cerâmica, taboca para hastes das flechas, etc.
No tocante à organização social e política, em se tratando de lideranças, já não existe nenhum líder religioso ou político nos moldes tradicionais, tal como antigamente, conforme relatam os mais velhos. Destaca-se na organização política a Associação Agroextrativista Poyanáwa Barão do Ipiranga (AAPBI), criada em 1998 para apoiar as lideranças e também para que a comunidade tivesse acesso a benefícios por meio de projetos com financiamento externo.
LIMA, J. F. (KIXI). Entrevista feita no II Encontro de Culturas Indígenas. Rio Branco-AC, 20/04/2001.
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FUNAI. Relatório da Viagem Realizada a Áreas Indígenas. Cruzeiro do Sul-AC, 03/13/1977.